Sábado, Abril 23

Duh

Há alguns dias, percorrendo a pé a distância entre um extremo e outro do meu apartamento, vi uma sombra se movendo na sala. Com estúpido destemor, fui conferir o que era. Era eu mesmo, com três bolachas Passatempo na mão, só de cueca, procurando o controle-remoto da televisão. Assustei-me (de todas as formas possíveis). Que coisa extraordinária, pensei, me encontrar assim, por acaso, na minha própria casa. Oportunidade única de saber o que eu andava pensando da vida.

Para minha tristeza, corri em direção à sacada e saltei, rodopiando. Doze andares depois, tive uma dor de cabeça terrível, terrível, que me fez voltar à cama e simplesmente dormir.

Meu herói

Salon: A lot of your work deals in one way or another with the end of the world. Do you ever get the feeling we're just about there?

Kurt Vonnegut: I wrote a piece about that, which nobody read, because nobody reads Playboy. But I talked about the fact that antibiotics aren't working, and we had an incurable disease show up, AIDS, and I came to the conclusion that the planet's immune system was trying to get rid of us. [Laughs.] (...) You know, after two world wars and the Holocaust and then the Balkans, I think the planet should get rid of us. We're really awful animals. I mean, that dumb Barbra Streisand song, "People who need people are the luckiest people in the world" -- she's talking about cannibals. [Laughs.] Lots to eat. [Laughs harder.]

Sexta-feira, Abril 22

Funny paper

Que tal um troca-troca?

Eu digo quais são minhas tirinhas digitais preferidas e você me diz as suas.

Leiam: The Perry Bible Fellowship, Elftor, Dinossaur Comics e, claro, os Malvados.

Clintão reaça?

"Conservatives routinely link themselves to 'family values', yet this movie by a conservative filmmaker gives us one of the most negative views of family I've ever encountered. In a bleak world, where neither family nor religious faith offers any lasting respite, Million Dollar Baby offers redemption that derives from the informal and nameless loving relationships people create on their own rather than inherit from family, church, or society." - Jonathan Rosenbaum

Genética

O papel de parede da área de trabalho do meu irmão é uma simulação digital do choque entre os planetas Terra e Marte.

O pessimismo, como se vê, está no sangue.

Kafka

Sou essencialmente pessimista. E neurótico. E paranóico. Essas coisas somadas não devem fazer bem à minha saúde a médio e longo prazo.

Na faculdade, trocaram o sistema de catracas de entrada. O sistema de código de barras do cartão de acesso foi trocado por outro, magnético. "Ótimo", inocentemente pensei, "agora posso entrar sem precisar tirar o cartão da carteira". Isso, percebam, foi um pequeno surto de esperança, um breve alívio da tensão nas minhas expectativas, sempre trágicas.

Na primeira tentativa de aproveitar a simplificação do processo de entrada no prédio, o segurança surge não sei de onde e me alerta para o fato de que é OBRIGATÓRIO deixar à mostra o cartão. Agradeço o aviso e sigo adiante, um POR QUÊ? ensurdecedor ecoando no meu cérebro.

Aquele lugar se torna cada vez mais robotizado e burocrático. Pra que "modernizar" o sistema se, na prática, ele custa mais, não economiza tempo e impõe mais regras estúpidas? O que diabos um intruso pode querer naquele prédio decrépito da Fundação Cásper Líbero? Um autógrafo do Sérgio Mallandro? QUE MUNDO É ESSE? É MUITA ESTUPIDEZ! NOSSO DESTINO É SOFRER POR TODA A VIDA E MORRER DE MORTE HORRENDA! UMA CHUVA DE ENXOFRE ESTÁ PARA CAIR SOBRE NOSSAS CABEÇAS! FETOS DE SEIS MESES RASGARÃO OS VENTRES MATERNOS E LERÃO CARAS, CRUZANDO AS PERNINHAS MAL-FORMADAS E DISCUTINDO O NOVO LIVRO DO JÔ SOARES ENTRE TRAGOS DE CIGARRO MENTOLADO!

Muito desagradável.

Para finalizar, mais um exemplo da estupidez da faculdade. Na biblioteca, além de detectores magnéticos colocados em cada entrada, tiveram a brilhante idéia de implementar um obrigatório sistema de guarda-volumes. O sujeito entra na biblioteca, entrega a carteirinha, faz o pedido de uma chave, assina um comprovante de retirada de chave, recebe a chave, sai da biblioteca, deixa suas coisas num armário numerado, volta à biblioteca. Depois disso, sai da biblioteca, retorna ao armário numerado, retira suas coisas, volta à biblioteca, devolve a chave e tem de esperar por um comprovante de entrega da chave.

Lembrando que há detectores magnéticos nas entradas.

Perguntei para uma das bibliotecárias o por quê do guarda-volumes OBRIGATÓRIO já que existem detectores. "Todas as bibliotecas têm", ela respondeu. "Sim, mas pra quê?", perguntei. Ela não soube dizer.

Quinta-feira, Abril 21

Previsão do tempo: nevasca e massacre



Era grande o perigo de que Assalto à 13ª DP fosse um lixo nojento. Refilmar qualquer coisa do John Carpenter é como tentar reescrever versículos bíblicos - sim, o cara tem seguidores fanáticos, eu incluso.

Os filmes do Carpenter não são, nem de longe, obras perfeitas. Pelo contrário, transpiram uma certa rudeza, mas não no sentido realista da coisa, "assim é que é", mas de urgência. São filmes que precisavam ser feitos pois havia um autor por trás deles, desesperado para realizá-los. E mais: são obras necessariamente fundadas em idéias fortes. Carpenter apresenta conflitos intensos, sempre balizados por metáforas e discursos muito bem definidos - geralmente subversivos e questionadores. Claro, muita gente só enxerga neles "filmes trash". Mas há muito mais para se ver.

Santificado seja Jean-François Richet pela precisão litúrgica com que conduziu esse remake. Não que seja fiel a cada fotograma, mas tributário da idéia e do clima.

No original, de 1976, uma vingativa gangue ataca uma delegacia semi-abandonada, em vias de ser fechada. Policiais e presos têm de se juntar para sobreviver. É basicamente, ele mesmo, um remake do western Rio Bravo, dirigido por Howard Hawks, ídolo máximo do Carpenter. O conflito tornaria-se, mais tarde, recorrente na carreira de Carpenter: um grupo heterogêneo forçosamente reunido num ambiente fechado, obrigados a administrar conflitos interiores para sobreviver a uma ameaça exterior.

No remake, a premissa é semelhante, mas com algumas adições muito interessantes. No lugar de uma gangue descontrolada, temos uma facção da própria polícia, numa operação de queima de arquivo. O alvo é um criminoso fodão (Laurence Fishburne, imponente), testemunha importante contra a corrupção policial. Ethan Hawke é o oficial no comando da delegacia, cujo passado o obriga a tomar a sério a responsabilidade de preservar a vida dos presos sob sua custódia. Some a isso nevasca, miras a laser, snipers e paranóia. Chorei.

O que mais me empolgou foi a perfeita construção do conflito. Na meia hora inicial, você vê o filme construindo carta a carta um castelo que, se sabe, vai cair. Vai cair lindamente. O que vem depois é um thriller empolgante, coeso e bem filmado.

E não acabou. Existem, sim, subtextos no filme. Digo isso porque li uma resenha de quinze linhas na SET onde o autor criticava interpretações pseudo-intelectualóides na obra do Carpenter e convidava o leitor a simplesmente aproveitar o remake como diversão descompromissada.

Não faça isso.

Quero dizer: divirta-se, mas não seja estúpido.

Não ignore o fato de que, na delegacia, todos os presos são negros - com exceção de um, que é latino - e todos os policiais são brancos - inclusive um irlandês tradicional, o mais hostil em relação aos detentos. Isso não é gratuito. Essa tensão social e racial está presente e é muito importante na narrativa. Além disso, a grande ameaça do filme é a própria polícia. Nada mais simbólico do que isso, a desconfiança em relação às autoridades.

Tudo isso está lá, sob a superfície de um filme policial "descompromissado".

Ótima refilmagem, ótima diversão, ótimo cinema.

Terça-feira, Abril 19

Curtas

Clã das Adagas Voadoras é ruim; Assalto À 13ª DP é formidável; Zatoichi é delírio; American Idiot, do Green Day, é até que divertido; a banda Som da Rua é o que mais venho escutando nos últimos dias.

Depois tento desenvolver cada afirmação.

Segunda-feira, Abril 18

busy busy busy

Apenas quatro horas diárias de trabalho seriam ideais. As pessoas teriam tempo para gastarem o dinheiro que ganham, a economia fluiria melhor, o stress geral diminuiria, tornaríamo-nos muito mais felizes, a graça de Deus iluminaria cada junção dos nossos ossos já nem tão descalcificados.

Enfim.