Era grande o perigo de que
Assalto à 13ª DP fosse um lixo nojento. Refilmar qualquer coisa do
John Carpenter é como tentar reescrever versículos bíblicos - sim, o cara tem seguidores fanáticos, eu incluso.
Os filmes do Carpenter não são, nem de longe, obras perfeitas. Pelo contrário, transpiram uma certa rudeza, mas não no sentido realista da coisa, "assim é que é", mas de urgência. São filmes que
precisavam ser feitos pois havia um autor por trás deles, desesperado para realizá-los. E mais: são obras necessariamente fundadas em idéias fortes. Carpenter apresenta conflitos intensos, sempre balizados por metáforas e discursos muito bem definidos - geralmente subversivos e questionadores. Claro, muita gente só enxerga neles "filmes trash". Mas há muito mais para se ver.
Santificado seja Jean-François Richet pela precisão litúrgica com que conduziu esse remake. Não que seja fiel a cada fotograma, mas tributário da idéia e do clima.
No original, de 1976, uma vingativa gangue ataca uma delegacia semi-abandonada, em vias de ser fechada. Policiais e presos têm de se juntar para sobreviver. É basicamente, ele mesmo, um remake do western
Rio Bravo, dirigido por
Howard Hawks, ídolo máximo do Carpenter. O conflito tornaria-se, mais tarde, recorrente na carreira de Carpenter: um grupo heterogêneo forçosamente reunido num ambiente fechado, obrigados a administrar conflitos interiores para sobreviver a uma ameaça exterior.
No remake, a premissa é semelhante, mas com algumas adições muito interessantes. No lugar de uma gangue descontrolada, temos uma facção da própria polícia, numa operação de queima de arquivo. O alvo é um criminoso fodão (Laurence Fishburne, imponente), testemunha importante contra a corrupção policial. Ethan Hawke é o oficial no comando da delegacia, cujo passado o obriga a tomar a sério a responsabilidade de preservar a vida dos presos sob sua custódia. Some a isso nevasca, miras a laser, snipers e paranóia. Chorei.
O que mais me empolgou foi a perfeita construção do conflito. Na meia hora inicial, você vê o filme construindo carta a carta um castelo que, se sabe, vai cair. Vai cair lindamente. O que vem depois é um thriller empolgante, coeso e bem filmado.
E não acabou. Existem, sim, subtextos no filme. Digo isso porque li uma resenha de quinze linhas na SET onde o autor criticava interpretações pseudo-intelectualóides na obra do Carpenter e convidava o leitor a simplesmente aproveitar o remake como diversão descompromissada.
Não faça isso.
Quero dizer: divirta-se, mas não seja estúpido.
Não ignore o fato de que, na delegacia, todos os presos são negros - com exceção de um, que é latino - e todos os policiais são brancos - inclusive um irlandês tradicional, o mais hostil em relação aos detentos. Isso não é gratuito. Essa tensão social e racial está presente e é muito importante na narrativa. Além disso, a grande ameaça do filme é a própria polícia. Nada mais simbólico do que isso, a desconfiança em relação às autoridades.
Tudo isso está lá, sob a superfície de um filme policial "descompromissado".
Ótima refilmagem, ótima diversão, ótimo cinema.