Em Busca da Terra do NuncaConflito: depois de assitir ao filme, uma hora depois, um dia depois, que seja, vem uma dúvida. O que diabos tem nesse filme? Acontece que, durante a projeção, até que gostei. Após, não sobra quase nada. Quero crer que não gasto linhas demais tentando dizer que é um filminho descartável, mas não é esse exatamente o termo (na verdade, quero fugir de "termos"). É um derivado de
Sociedade dos Poetas Mortos, aquele em que um adulto iluminado e de coração extraordinário surge na vida de um grupo de jovens e muda suas vidas pra sempre. A premissa é tão batida e tão ordinária, mas por que ainda faz efeito aqui? Fora o fato de eu ser um manteiga incorrigível, há dois fatores: Johnny Depp e metalinguagem. O primeiro pela constante sensação de que, em algum momento, ele vai ser o ator de sempre, histriônico e, hum, "estranho". Desista, ele segue estranhamente contido até o fim, o que não deixa de ser interessante (ainda que, caramba, ele realmente não mereça uma indicação ao Oscar). O outro fator é essa brincadeira com a origem de
Peter Pan. Gosto dessa abordagem, que se ocupa da periferia de um grande Fato - no caso, a obra clássica coisa e tal. Fora esses raquíticos pontos de interesse, nada muito animador aqui. E fiquei decepcionado com o final, acho que terminar com a caminhada de Kate Winslet pelo jardim onírico seria brilhante. Pena, Marc Forster. Vai ser difícil cê superar a foderosidade que é
A Última Ceia.
SidewaysOk, junto com o próximo, os meus dois filmes do ano até agora. Nessas horas é que aquela separação tosca nas categorias do Globo de Ouro se torna perdoável.
Sideways é daqueles filmes em que bastaria dizer, num mundo civilizado e gentil: é sobre Miles, Jack, Maya e Stephanie (ok, esta última nem tanto), que são pessoas tão reais quanto você e eu; veja logo e me conte depois. Certo, esse argumento de
realidade é muito estúpido, reconheço, mas não consigo pensar em nada mais imediato pra comunicar o que quero dizer. São pessoas reais: eles reagem de forma humana a acontecimentos tão absurdos e desventurosos quanto os da vida diária. Paul Giamatti e Thomas Haden Church juntos em cena são uma coisa de louco. Hilários e comoventes, as duas coisas perigosamente ao mesmo tempo, fiquei com uma dor de cabeça benigna por dias, e dura até hoje, encontrar esses caras foi uma das melhores experiências dos últimos tempos. "Se alguém pedir um Merlot, eu vou embora!" Chorei.
Million Dollar BabyClint é mestre, simples assim.
Sobre Meninos e Lobos já tinha sido mais do que meu coraçãozinho cinéfilo podia aguentar. Com esse, devo ter entrado numa espécie diferente de coma, um em que a consciência não dorme, e que o acesso aos sentimentos parece encurtar. Não se engane: o filme parece que é sobre a determinada mulher que deseja se tornar boxeadora, mas na verdade é principalmente sobre o homem que hesitantemente aceita treiná-la. É um filme carregado de marcas passadas que se acumulam sobre a pele dos personagens, como chagas silenciosas sob sombras. Clint filma o envelhecer: que espécie de sentimento se acumula com o tempo no interior do homem? Camadas e camadas de arrependimentos e culpas sobrepostas ano após ano. Frankie, personagem de Clint, é um cravo metálico fincado na areia, enferrujando a olhos vistos. O que faz com que ele continue fincado ali? O que faz com que continuemos? Filme devastador, absurdamente seguro de si. A trinca de atores é até covardia. Minha grande aposta (e torcida) no Oscar. Clint é mestre, simples assim.