Travessia

CELINE: Acho que, se Deus existe, Ele não está em nós. Nem em você nem em mim, mas no espaço que nos separa. Se há algum tipo de mágica nesse mundo, ela está na tentativa de compreender alguém, compartilhar algo. É quase impossível conseguir, mas isso não importa. O importante é tentar. (Antes do Amanhecer, 1995)A cena seguinte é num bar. A câmera nos mostra diferentes pessoas conversando, em várias línguas. Exceto em um diálogo em inglês, nos demais não temos legendas. Vemos apenas aquelas pessoas conversando, olhando umas às outras nos olhos, reagindo às palavras, gestos e olhares. Sutil e bonito. Como todo o filme é (assim como sua sequência, Antes do Pôr-do-sol).
Essa fala de Celine, personagem de Julie Delpy (lindíssima), me acompanha há dias. Porque apresenta uma visão sobre a natureza divina que é muito bonita. Não sou ateu, mas também não acredito em Deus como um conceito único. Talvez Deus para mim seja uma espécie de coringa que uso pra dar sentido a coisas e situações que não entendo. A idéia de Celine funciona desse modo pra mim. Nunca fui dos mais comunicativos, e a timidez já foi a grande dificuldade da minha vida. Isso mudou com o tempo - agora não tenho o luxo de ter uma só Grande Dificuldade na Vida -, mas foi difícil. Vencer a timidez é como sair de uma ilha - você mesmo, talvez - e atravessar um mar revolto. Algumas conversas ainda são difíceis, mas há uma certa beleza nesse simples ato de conversar. Se fazer isso é se aproximar de uma pessoa, no sentido de aos poucos arranhar a superfície de sua intimidade, colhendo pequenos exemplos de sua singularidade, é Deus que atravessamos para conseguir isso. Ou seja: minha oração é o diálogo com outras pessoas. E a fé está em acreditar que elas respondam.




