Sexta-feira, Dezembro 24

Travessia


CELINE: Acho que, se Deus existe, Ele não está em nós. Nem em você nem em mim, mas no espaço que nos separa. Se há algum tipo de mágica nesse mundo, ela está na tentativa de compreender alguém, compartilhar algo. É quase impossível conseguir, mas isso não importa. O importante é tentar. (Antes do Amanhecer, 1995)
A cena seguinte é num bar. A câmera nos mostra diferentes pessoas conversando, em várias línguas. Exceto em um diálogo em inglês, nos demais não temos legendas. Vemos apenas aquelas pessoas conversando, olhando umas às outras nos olhos, reagindo às palavras, gestos e olhares. Sutil e bonito. Como todo o filme é (assim como sua sequência, Antes do Pôr-do-sol).

Essa fala de Celine, personagem de Julie Delpy (lindíssima), me acompanha há dias. Porque apresenta uma visão sobre a natureza divina que é muito bonita. Não sou ateu, mas também não acredito em Deus como um conceito único. Talvez Deus para mim seja uma espécie de coringa que uso pra dar sentido a coisas e situações que não entendo. A idéia de Celine funciona desse modo pra mim. Nunca fui dos mais comunicativos, e a timidez já foi a grande dificuldade da minha vida. Isso mudou com o tempo - agora não tenho o luxo de ter uma só Grande Dificuldade na Vida -, mas foi difícil. Vencer a timidez é como sair de uma ilha - você mesmo, talvez - e atravessar um mar revolto. Algumas conversas ainda são difíceis, mas há uma certa beleza nesse simples ato de conversar. Se fazer isso é se aproximar de uma pessoa, no sentido de aos poucos arranhar a superfície de sua intimidade, colhendo pequenos exemplos de sua singularidade, é Deus que atravessamos para conseguir isso. Ou seja: minha oração é o diálogo com outras pessoas. E a fé está em acreditar que elas respondam.

Quarta-feira, Dezembro 22

Do you, Mister Jones?



Melhor disco do Dylan, na minha provisória opinião.

Terça-feira, Dezembro 21

Your ears are full but you're empty


Não sou um bom elaborador de listas, top fives, essas coisas. Tanto minhas preferências mudam muito com o tempo, e encarcerá-las na estrutura opressiva dessas listas me aborrece, quanto minha memória costuma falhar com admirável pontualidade nesses casos. Mesmo assim, hoje estava pensando nos solos de guitarra que mais gosto. São muitos, das mais variadas espécies, digamos assim. Uma música que adoro, como Cortez The Killer, do Neil Young, por exemplo, é praticamente um solo só, que aparece, some e reaparece ao longo de mais de sete minutos de genialidade desse velhinho canadense. Ou seja: é como se não houvesse solo, pois ele é quase a base da canção. Mas eu citaria como um dos meus solos favoritos.

Outros são "clássicos", como os de Highway Star e Burn, do Deep Purple. Ainda lembro da minha completa estupefação ou ouvi-los pela primeira vez. Não sabia que uma guitarra podia fazer aquilo.

Mais um que me deixa maluco toda vez que ouço é o de All Along The Watchover, do Hendrix. Pra mim, é uma espécie de idealização do que é um solo numa música: essa expressão que parece fugir dos limites da canção, que a extrapola completamente, ainda que, paradoxalmente, mantenha-se numa sintonia sobrenatural com ela. Enfim, o Hendrix tinha a manha.

Existem mais um monte de outros solos dignos de citação, muitos bastante conhecidos e lembrados por aí. Mas um que eu acho genial, um dos melhores do rock, e que nunca ouvi ninguém comentar sobre, é o de Coffee & TV, do Blur. Graham Coxon é um dos guitarristas mais criativos que conheço. Acho que 80% do meu interesse pelo Blur vem da guitarra nas músicas. Essa, em particular, é das minhas favoritas: doce, melancólica e com um dos clipes mais FOFOS (da caixinha de leite, você provavelmente já viu e se emocionou). O que ninguém fala, CARALHO, é do solo FODEROSO dessa música. Uma fúria de microfonia e distorção das mais selvagens, e perfeitamente encaixada nessa música leve e simpática, das que te deixam cantando com cara de bobo sozinho no metrô (já fiz muito isso). Um contraste que mal dá pra ser notado, tamanha a perfeição como as coisas são misturadas. Solo violento, com uns vibratos dementes, uma coisa linda de se ouvir. Dos melhores já gravados. Ninguém notou? Dá tempo.

Domingo, Dezembro 19

Um Bar

Estavam naquele bar há mais tempo que a bateria de seus relógios de pulso pudesse suportar; ela, uma simples bateria, de vida tão mais curta que nossa capacidade de nos perdermos em si próprios. Mas permaneciam lá, e apenas podiam se ouvir, pois a pilha de garrafas e copos soterrava a visão mútua. Era uma conversa de duas vozes. Os corpos talvez nem existissem mais, derretidos pelo calor do álcool e pelos olhares raivosos das incontáveis gerações de garçons que lhes serviram, cada uma, doses e mais doses e porções de carne e sangue. Estavam lá, permaneciam lá.

- Eu vou e volto sempre ao mesmo assunto, tenho a impressão de que nunca vou me livrar dele enquanto continuar aqui - disse o de camisa de flanela, barba centenária e olhar perdido no anoitecer.

- É a mesma impressão que tenho - concordou o cabeludo de olheiras hesitantes, amante da tequila e da música de trabalho dos negros americanos.

- A sensação é de que isso faz mais sentido quando falo sobre. Se não falo, a coisa cresce dentro de mim e escorre pela minha boca, suja minha camisa. Falando, ela diminui, ela mingua, se esconde entre meus órgãos internos e espera. Não consigo matar.

- Então fale de novo.

- Tudo bem. Parece que não tenho escolha.

- Todo mundo diz que a gente tem, mas é uma grande mentira - e pediu outra garrafa.

- Tem essa visão que não me abandona, a visão das pernas daquela mulher, ela de costas, de pé, um vestido fino sustentado por dois filetes de tecido espreguiçados sobre seus ombros nus. Descalça. Lavando louça, indiferente à minha presença. A tensão de seus músculos parecia produzir um ruído, uma eletricidade no ar doméstico, as paredes se curvando, inchando e se retorcendo. E eu ali, assistindo aquela mulher lavar a louça, de costas para mim, e eu ali, imóvel, tentando respirar com a garganta cortada, tentando me mover com os ossos esmigalhados, tentando gritar com o fôlego seqüestrado. E as finas veias azuis das pernas dela espetavam meus olhos. Quando uma lágrima ameaçou verter, ela se virou e perguntou meu nome.

- E você não fez nada.

- Eu não fiz nada. O que eu poderia fazer?

- Qualquer coisa.

E tomavam mais um gole, longo e sofrido.

- Eu vou e volto sempre ao mesmo assunto.

E tomavam mais um gole.

Lembrando o Rei

eu te proponho nós nos amarmos, nos entregarmos
neste momento, tudo lá fora, deixar ficar
eu te proponho te dar meu corpo
depois do amor, o meu conforto
e além de tudo, depois de tudo
te dar a minha paz.

eu te proponho, na madrugada, você cansada
te dar meu braço, no meu abraço fazer você dormir
eu te proponho não dizer nada
seguirmos juntos a mesma estrada
que continua depois do amor.

(Proposta, de Erasmo Carlos e Roberto Carlos - 1973)

Que coisa linda.

Sábado, Dezembro 18

Roque Enrow


Através da insistência de uma grande amiga, ouvi, depois de algumas recusas preconceituosas, o disco Fruto Probido, da Rita Lee & Tutti Frutti. Nunca me arrependi tanto. Não por ter ouvido, digo, mas por ter recusado antes. Puta disco.

A música que me ganhou logo de cara: Agora Só Falta Você, a versão original que eu, pelo jeito, nunca tinha ouvido. Guitarra precisa, solos de sax bacanas e, o principal, uma bateria keithmooniana de chorar de tão foda (obra de Franklin Paolillo).

Rita Lee parece que não funciona sozinha. Precisa de uma banda DE VERDADE pra acompanhá-la (Mutantes, Tutti Fruti), senão o que sai é essa porcaria que ela vem gravando nos últimos anos.

Good Vibrations

Para minha surpresa, arrumei emprego. Estágio remunerado, na verdade. É um começo. Alguns amigos me deram os parabéns, outros, condolências. Em outra época, essas últimas seriam mais adequadas, mas não é o caso. Eu realmente estava precisando disso, em vários sentidos, e fiquei feliz com a notícia. É parte importante de um monte de mudanças para o ano que vem: uma mudança literal (tchau, Itaim Paulista!); expectativa de um grande aumento de compromissos acadêmicos, profissionais e sociais; reajuste de algumas prioridades pessoais. Vai ser muito bom. Não apenas comparado ao lixo que foi 2004*, mas por si mesmo, um ano que começará com muito mais possibilidades do que qualquer outro da minha vida.

Somado a isso, algumas resoluções baratas: largar a cachaça; não sofrer por mulher alguma; ser austero sem deixar de ser terno; disciplinar minha alimentação (ou seja, evitar os hot-dogs de R$ 1,39 da estação Brás); ler mais e melhor; escrever mais e melhor; ver mais filmes e melhor; ouvir mais música e melhor; amar mais e melhor. O de sempre.

* Um ano péssimo, é verdade, mas com coisas boas que não posso esquecer. Ganhei muitos bons amigos ao longo desses meses todos, o que é sempre fantástico. E, além disso, conservei e alimentei amizades já existentes - e todo mundo sabe a importância disso. O maior lucro de 2004.

Terça-feira, Dezembro 7

The Life Aquatic with Steve Zissou



Futuro melhor filme de março do ano que vem.

Monty Python

Maluf "admitiu negando" envio de dinheiro ao exterior, diz procurador

O que significa "admitiu negando"? Maluf está com alguma disfunção motora? Deve ter feito que "sim" com a cabeça e dito "não", ou vice-versa.

Acho que essa de "admitiu negando" é o "eu estava apenas fazendo uma pesquisa" desse ano.

Sábado, Dezembro 4

Vista a roupa, meu bem

Uma coisa que eu respeito cada vez mais é a força das referências da nossa infância. Meus dois exemplos preferidos são o Didi e o Roberto Carlos. Ambos, hoje em dia, só me deixam triste. Não os reconheço, mesmo que vagamente, em alguma essência qualquer. Como RC/EC mesmo escreveram: Ficaram as canções e você não ficou/Esqueceu de tanta coisa que um dia me falou... Contudo, sempre que reencontro o que eles fizeram há décadas, é foda. Não sei: Monty Python, que eu conheci há relativamente pouco tempo, é muito bom pra caralho e gosto bastante, mas Os Trapalhões serão sempre o máximo. Todas essas bandas atuais, todo esse rock indeciso entre a fuga dos velhos rótulos e o constante retorno a eles, é muito bom, mas o Rei é o Rei. Sexta-feira lembrei disso.

Fugindo da chuva, em direção a uma agência bancária, ouvi som de música lá no Sesi da Paulista. Parei. Eram uns caras vestidos com roupas coloridas, bregas. O vocalista eu conhecia de algum lugar, e logo lembrei: era o Língua de Trapo. Tocavam Roberto Carlos. Mas não o repertório recente, de baladinhas choramingosas, mas só o fino da trajetória do cara, na minha opinião - finalzinho dos anos 60, começo dos 70. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, O Inimitável, etc.

Mesmo chegando na metade, foi incrível. Bandinha malandra, compacta, emulando os arranjos originais. Belo setlist. Mas fiquei impressionado mesmo foi com meu olhos marejados. Aquelas músicas realmente me fazem um estrago imenso. Quando tocaram As Curvas da Estrada de Santos (covardia, essa música é a melhor), esfregava ostensivamente os olhos. Nem o carinha fumado e saltitante ao meu lado ou as velhas senhoras presentes pareciam tão emocionados como eu. Um guri de 20 anos que cresceu ouvindo Roberto.