Domingo, Outubro 31

Clô e suas egotrips

Sempre quando penso em deixar de ver televisão - em favor de atividades mais enriquecedoras, como a filatelia, a sinuca ou o alcoolismo - surge um programa qualquer que me lembra da importância desse maldito aparelho na minha formação como ser humano pensante, sensível e pagador de impostos.

No caso, é o programa de Clodovil Hernandez.

Não assisto inteiro, antes que alguém pergunte. Já seria demais. Mas tento sempre não perder o início, em que Clô fala com o espelho. Pelo menos é o que os caracteres gerados eletronicamente na tela me dizem: "Clodovil de frente para o espelho."

A câmera fixa, Clô sentado numa escrivaninha estilo século XVIII (sei lá) com o retrato de sua falecida mãe em lugar de destaque, cenário de fundo de gesso pintado em cores quentes, mas suaves. Músicas finas na trilha sonora. Nada mais simples, nada mais direto. Não é à toa que ele se considera o ápice do bom gosto na tevê brasileira.

Mas o mais engraçado da coisa toda é que ele realmente parece falar com um espelho. Não há a mínima preocupação em dirigir seu discurso a alguém além de si mesmo. Ele fala em código; muda de assunto bruscamente, para outro sem qualquer relação com o anterior; faz caras melífluas, como quem tenta seduzir a si mesmo; engrena críticas a terceiros disfarçadas de autocríticas.

E é divertidíssimo.

Clodovil: um mestre da egotrip.

Ao vivo, de segunda a sexta.

Sexta-feira, Outubro 29

Yeah yeah yeah

O verdadeiro compositor de She Loves You escreveu quase todas as palavras que cantamos incontáveis vezes ao logo desses anos, exceto os yeah yeah yeah. E o fez três anos antes de Lennon & McCartney assinarem a canção e perpetuarem o roubo. Contudo, ele não reivindicou a glória para si. Nem pensou nisso, entretido que estava com suas caças a baleias nos Oceanos Pacífico e Atlântico, os arpões imensos rasgando paredes vivas de pele, gordura e carne; toneladas delas saltando em direção ao céu e morrendo envolvidas pelo perpétuo ruído das águas. Ele não precisava amar ninguém, assim como não precisava avisar a ninguém do amor alheio.

Numa noite tranquila, como a maioria das que viveu, intrigou-se com a lembrança da música, rabiscada num guardanapo de lanchonete em Amsterdã. De onde vieram aquelas palavras? Aquele sentimento? Seu navio partia em algumas poucas horas, e já não suportava mais o chão colossal e impávido sobre seus pés, tediosamente imóvel. Escreveu como quem coça a barba, como quem murmura olás para cães sarnentos. Escreveu sem acionar o músculo cardíaco. Deixou o papel para trás, em meio a restos de hambúrguer e condimentos.

A noite avançou, o sono lhe soprou o ouvido; adormeceu sem concluir coisa alguma sobre o episódio. Matou baleias com devoção até o fim da vida.

Segunda-feira, Outubro 25

Spiders are singing in the salty breeze

Jesus, don't cry

Rock 'n' roll and music and rock 'n' roll as a catalyst and music in general is the closest thing to any spirituality that I will ever find in my life.* - Jeff Tweedy

Não

Não a encontrei num bar, a fumaça dos cigarros formando auréolas opacas sobre sua cabeça, as luzes calculadamente irregulares desenhando continentes em seu torso vestido de preto. Não a vi por acaso, cercada de outros caras bem vestidos e perfumados e barbeados e penteados, perfurada pelo tédio. Seu olhar ansioso por ajuda não existiu. Tampouco me aproximei, tímido, pedindo uma cerveja ao barman, fitando seu rosto sem muita prática. Não nos encaramos com curiosidade. Não dissemos oi.

Antes tivéssemos conversado brevemente - palavras afiadas, nenhuma sílaba desperdiçada, goles breves na bebida já não tão gelada - do que o longo e tortuoso diálogo de todo dia. Não lhe beijei de impulso, engolindo junto um comentário seu sobre alguma coisa qualquer, um beijo longo que abafou por muitas eras todo o ruído exterior a mim e a você. Não nos separamos lentamente, chocados pelo retorno à realidade. Não sorrimos. Não repetimos tudo de novo.

Mesmo porque é tudo clichê e não somos disso.

Sinais de fumaça

E-mail novo: dlimasouza arroba gmail ponto com. Escrevam.

Sexta-feira, Outubro 22

Caminhada

Mesmo com tanto esforço pra olhar pra frente, não me distrair com o esmaecimento do fim da rua pela neblina, não me distrair pela confusão de sensações quando o vento bate no meu rosto e atinge tanto pele quanto barba quanto sono, não me distrair com a lembrança do lento movimento de suas pálpebras vencidas pelo cansaço, não me distrair com a perspectiva de não escapar de sorrir para seu olhar insuportavelmente imenso e longo, mesmo assim ainda esbarro comigo mesmo e caímos ambos no chão, envergonhados, murmurando desculpas.

Quarta-feira, Outubro 20

Ego

Sofie simplesmente acordou e reivindicou a onipotência divina para si. Aguardou alguns segundos, até a confirmação interior da própria deidade, aspirou lentamente todo o ar da atmosfera e soprou de volta. Todos os seres vivos do planeta morreram envenenados.

Sofie inflou-se de ares cinematográficos e desceu a escada, a ponta do dedo médio deslizando pelo metal do corrimão. Sentia-se observada por si mesma, e nada poderia ser mais saboroso. Encontrou seus pais sentados esparramados mortos à mesa, flácidos e patéticos como embalagens vazias. Roubou um gole do café de papai e mastigou o seio esquerdo da mamãe até roçar os dentes no coração emperrado da velha senhora. Beijou o rosto de cada um e saiu de casa, ansiosa por ignorar completamente os seis bilhões de cadáveres humanos largados a seus pés. O que fez, cheia de ternura; até sentir falta de Serge, loiro 28 anos tatuagem tribal na nuca malhado dentes muito brancos. Andou por algumas milhas até encontrá-lo sentado num vaso sanitário de um boteco bastante frequentado da Rua Augusta.

A cabeça largada entre os joelhos.

A nuca tatuada insinuando-se para a caixa de descarga.

Imaginou Serge voltando à vida, constrangido pela posição ridícula em que estava quando agraciado com a morte; seria o bastante; converteu o pensamento em vontade. Nada aconteceu. Continuavam imóveis Serge e a matéria fecal em seus intestinos.

A Sofie ocorreu a idéia de chorar, mas lágrimas poderiam molhar o solo e semear espelhos.

Terça-feira, Outubro 19

Ela

Sábado meu humor estava ótimo. O dia inteiro, desde o café forte pela manhã até o sono no fim da madrugada. Não sei bem o porquê. Sentado na ponta da mesa, alisando o copo, sem conversar com ninguém por alguns minutos, envolvido pelo som alto da música e das conversas, esperei que a consciência de alguma amargura qualquer viesse à tona, como sempre vem, içada pelo acaso, e me limasse o ânimo até os ossos. Não veio. Breve brecha de felicidade, aquela noite.

Sorri mais do que o costume. Um pouco porque ela também sorria, e muito, e dançava, e não havia como não sorrir junto. Mas era também fruto da lembrança da minha suprema desimportância no mundo. É bom sorrir para a própria insignificância. Responder com descaso. Concordar e seguir adiante; porque só se pode seguir, nunca chegar. E enquanto ela sorrisse, eu não poderia estar diferente.

Domingo, Outubro 17

Heavy Metal Drummer

O Wilco está tentando conquistar meu coração...

ATUALIZAÇÃO: Quem dera fosse uma mera conquista.

Estou profundamente perturbado pelo disco A Ghost Is Born. Spiders (Kidsmoke), mais de 10 minutos de duração, é hipnotizante.

I Am Trying To Break Your Heart, do Yankee Hotel Foxtrot, é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Jeff Tweedy, esse filho da puta; que letras são essas. Radio Cure:

Oh, distance has no way of making love understandable...

Lapadas do Povo



Nunca é tarde pra se dizer: putamerda, como esse Lapadas do Povo, do Raimundos, é bom.

É o melhor da banda, na minha opinião. Disco boçal, divertido, rápido e seguro de si. Véio, Manco e Gordo, por exemplo, dura 1 minuto, a letra é pura molecagem cuspida à velocidade da luz pelo Rodolfo, rasgada por uns riffs fodidos do Digão. Não é preciso mais que isso. Ela vem e vai num piscar de olhos, mas deixa um estrago incrível.

O auge da guitarra na discografia da banda é aqui. Toda aquela seção instrumental demente no final de Crumis Ódamis é alienígena. Um nível de tosqueira absurdo com o qual é surpreendente topar num disco de grande gravadora; no caso, a Warner.

Sem contar a maioria das letras, grandes egotrips inconseqüentes e engraçadas pra caralho: Foi quando veio a dona coisinha com uma renca de filha/pedindo autógrafo pra toda família/e quis ficar no meio com a assinatura bem no bico do seio/fico na minha, puxo a seda, a véia vem com recheio (O Toco). Esse senso de humor sacana cai muito bem com o som deles. E eles sabiam fazer isso. Dá saudade, até.

Pena que já Elvis.

Se bem que não duvido nada que façam um Reunion da banda aí, quando o nível de desespero dos integrantes atingir seu limite.

Acústico, provavelmente.

Sábado, Outubro 16

Uma cena

Resident Evil: Apocalypse

Resident Evil: Apocalypse

Lixo.

Mais uma vez desperdiçam a oportunidade de filmar um horror/sci-fi encagaçante e com ação decente. Se o primeiro era apenas razoável, mas cheio de boas possibilidades ignoradas, esse consegue acabar com quaisquer expectativas da sequência ser melhor; sim, o final acena para uma terceira parte, infelizmente.

Culpa desse Paul W. S. Anderson, espécie de copro-Midas. Para fins de registro: Mortal Kombat, Resident Evil, Alien vs Predator, tudo com o dedo dele, dirigindo, escrevendo e/ou produzindo.

Sorte minha (nossa, né) que o Romero está voltando com o Land of the Dead. Aí, sim.

Sexta-feira, Outubro 15

Gato e Rato

Belo artigo sobre como se proteger de ações judiciais contra blogs. Provavelmente motivado pelo recente caso do Imprensa Marrom.

Essas primeiras tentativas de controle de informação na internet indicam um pouco do que virá. Esse monstrão imponderável que é a rede vai virar um violento Pac-Man, labiríntico e virtualmente infinito, cheio de gente correndo atrás de pílulas de informação - e fantasmas (grandes corporações, governos, pessoas "notáveis", etc) tentando barrá-los.

O divertido disso tudo é que sempre haverá maneiras de se escapar desse tipo de controle. Mesmo que as medidas judiciais contra blogs se avolumem e amputem a liberdade de seus autores, alguma forma diferente e não vigiada de expressão e troca de informação já estará em uso por algum punhado de gente e logo se espalhará.

É verdade que deve ser um porre o incômodo com essas ações idiotas, mas elas nunca darão conta das possibilidades da internet - ou mesmo de qualquer outra forma de troca de dados que provavelmente ainda inventarão.

Quarta-feira, Outubro 13

Apunhalados


Elliott Smith
1969-2003

A trilha sonora dentro da minha cabeça durante o ano inteiro foi Elliott Smith, basicamente. Daí lembro de Alta Fidelidade: nossas vidas são miseráveis porque ouvimos música, ou ouvimos música porque nossas vidas são miseráveis?

Mas não era bem isso...

Segundo li, Elliott se matou com uma facada no peito depois de brigar com a namorada.

Facada no peito. Só de pensar no assunto eu fico perturbado. Quantas vezes [por dia] não sinto aquela dor física no peito, por qualquer angústia que seja (e são tantas), e massageio, pressiono, bato, tentando aliviar? Meus gestos e o de Elliott são análogos. É a mesma intenção.

Pelo menos é como interpreto sua ação. Cada forma de suicídio carrega consigo certos significados. Se jogar de uma ponte, cortar os pulsos, enfiar a cabeça no forno, se lambuzar de sangue e pular no Pacífico - nenhuma é por acaso.

A facada no peito do Elliott me assusta porque eu, de certa forma, me reconheço nela. E também em suas músicas, desde as soturnas e enervantes, dos primeiros discos, às melancólicas e exuberantes dos últimos. É como se o filho da puta falasse comigo, ou de mim - o que é um clichê, mas muito verdadeiro, no momento. É identificação demais.

he's so unhappy inside
he's serious with everyone
and he thinks he'll win you with his angry kiss
acting like he has no needs
wanting you to watch him bleed
(Painclothes Man)

Overture

Como previsto, o serviço lá no mblog foi suspenso, e junto com ele meu blog e seus arquivos. Não pretendo pagar os 35 dólares cobrados pelo resgate daquilo tudo que escrevi; não valem dinheiro algum. E, bem, sempre é bom mudar, deixar as coisas para trás. Tudo passa, tudo passa.

Vou tentar voltar a escrever com maior frequência, esse ano tem sido péssimo pra mim nessa área. (Assim como em outras) Mas, enfim.

Adiante.